O Brasil encerra 2025 com um retrato inquietante do seu ambiente empresarial. Dados do Serasa Experian mostram que 8,7 milhões de empresas estão inadimplentes, o maior número desde o início da série histórica em 2019. O estoque de dívidas corporativas já soma R$ 204,8 bilhões, enquanto a média por CNPJ ultrapassa R$ 23,6 mil. O avanço não se concentra em negócios inativos ou marginais. Ele se espalha entre empresas que continuam operando, faturando e mantendo estruturas de médio porte.
Essa combinação de números ajuda a explicar por que o debate sobre 2026 passou a preocupar quem acompanha o problema por dentro. Para Valdecir Rabelo Filho, advogado especializado em direito bancário e insolvência empresarial, os dados estatísticos refletem um movimento que já vinha aparecendo nas mesas de negociação antes mesmo de ganhar manchetes. Ao longo da carreira, ele já participou da renegociação de mais de R$ 500 milhões em dívidas empresariais, acompanhando de perto como o endividamento deixou de ser episódico e passou a integrar a estrutura financeira de muitas companhias.
O ponto mais sensível, segundo Rabelo, não está apenas no volume total da inadimplência, mas no perfil das empresas envolvidas. Muitas não estão paradas nem próximas de encerrar atividades. O problema reside na forma como o passivo foi construído e mantido ao longo do tempo, especialmente após renegociações sucessivas feitas sem revisão técnica aprofundada.
“Boa parte das empresas chega acreditando que o problema é jurídico, quando na verdade ele é financeiro e regulatório ao mesmo tempo. Se a dívida não é compreendida tecnicamente, qualquer negociação vira tentativa”, afirma.
Os próprios números ajudam a ilustrar esse cenário. A média de 7,1 contas em atraso por CNPJ indica pulverização do endividamento, não a existência de um único contrato fora de controle. Somado ao aumento do valor médio da dívida, o quadro revela uma pressão contínua, que corrói margens e reduz a capacidade de reação das empresas. Para 2026, o risco se concentra menos em um choque repentino e mais na continuidade desse desgaste silencioso.
Outro fator que amplia a atenção é a concentração setorial. O setor de serviços responde por 54,9% das empresas inadimplentes, justamente o mais representativo da economia brasileira, responsável por quase 70% do PIB. São negócios altamente dependentes de capital de giro, crédito bancário e previsibilidade de fluxo. Pequenas alterações no custo da dívida ou na postura das instituições financeiras afetam diretamente a operação.
Na leitura de Rabelo, o comportamento dos bancos já mudou. As instituições passaram a atuar de forma mais técnica, amparadas por resoluções do Banco Central ligadas a risco de crédito, provisões e reestruturação. A margem para renegociações baseadas em histórico de relacionamento diminuiu. Em seu lugar, entram critérios objetivos, cálculos refinados e decisões ancoradas em modelos internos de risco.
Esse movimento expõe uma fragilidade recorrente. Muitos empresários conhecem o valor nominal da dívida, mas não o seu valor real. Não conseguem separar juros remuneratórios, encargos moratórios e capitalização, nem entender como o contrato se comporta ao longo do tempo. Nesses casos, renegociar sem recalcular tende a apenas adiar o problema.
“Quando a negociação não é técnica, ela costuma aumentar o passivo. O empresário sente alívio no curto prazo, mas perde fôlego no médio”, resume.
Em um ambiente mais rígido, ferramentas como recuperação judicial ou extrajudicial deixam de ser associadas apenas a situações extremas e passam a ser utilizadas como instrumentos de reorganização. O crescimento da inadimplência mostra que esperar o colapso operacional se tornou uma estratégia arriscada. A diferença entre empresas que atravessam crises e as que entram em colapso costuma estar no momento em que o passivo é enfrentado de forma estruturada.
À frente da VR Advogados, Rabelo acompanha esse movimento em escala. São milhares de processos ativos na área bancária e equipes multidisciplinares que unem direito, finanças e análise regulatória. A experiência acumulada reforça a leitura de que 2026 tende a ser um ano de maior rigor, menos tolerante a improvisos.
O alerta não aponta para uma onda inevitável de falências, mas para um ambiente de seleção mais dura. Empresas que não dominam sua estrutura de dívida, que não revisam contratos e que não tratam o passivo como parte central da gestão financeira entram em desvantagem competitiva.
O avanço da inadimplência corporativa indica que o problema já está instalado. O próximo ciclo econômico tende apenas a tornar visível aquilo que hoje ainda passa despercebido em muitos balanços. Para o empresário, compreender a dívida deixou de ser um exercício defensivo. Tornou-se condição básica para continuar operando em um mercado onde o crédito é mais caro, mais técnico e menos indulgente.






